Venho por este meio criticar as mais altas autoridades que regem a minha vida. Este texto vem como uma manifestação normal de absoluta falta de paciência para com estas autoridades, que aplicam de modo errado os princípios de justiça na minha vida.
Tenho uma curta vida, ainda não tenho 18, e acho que mereço mais da vida do que tenho. Eu, por princípio, não gosto nem costumo queixar-me da vida, já que acredito que somos nós que fazemos o que queremos dela e colhemos os frutos das nossas acções, contudo tenho vindo a constatar que esse modelo de regência de vidas não tem sido correctamente aplicado na minha vida pelos seguintes argumentos:
1- Nunca vivi de modo a que o próximo fosse prejudicado, tenho vindo a apurar um grande sentido de altruísmo na minha vida. Inclusivamente planeio a minha vida e os meus objectivos de forma a que possa ser totalmente dedicada ao bem dos outros. Sinto que sou uma pessoa com uma apurada noção do outro e tento aplicá-la, sinto também que tenho uma personalidade claramente vocacionada para estar sempre presente quando preciso e com uma disponibilidade sentimental e psicológica para conseguir sentir o que o outro precisa.
2- Sempre pedi pouco da vida, ou até mesmo nada. A minha falta de ambições materiais e a minha falta de desejo em realizar-me a nível conjugal, têm-me vindo a levar a vida com poucas exigências. Levo uma vida onde não peço nem exijo nada a ninguém.
3- Nunca aceitei a vida que tenho como sendo um dado adquirido. Sempre tive consciência de como vivo e nunca julguei que fosse algo imutável e dado de mão beijada. Sempre reconheci o suor de quem o suou, sempre tentei suar para que outros não tivessem que suar por mim! Sinto que não vivo parasita da sociedade, sinto que tenho uma posição na vida que poucos têm: a de reconhecer como uma sorte, mas que precisa de ser sustentada por nós.
4- Tento, ao contrário de muitos, justificar o investimento na minha vida através de serviço social e do mais digno trabalho político. Sinto que a minha vida começa a “pagar-se” pela obra que tento alcançar, sinto-me raro quando sinto a necessidade de compensar a minha existência por trabalho ao próximo, principalmente sabendo que quase ninguém sente isso.
5- Nunca fui feliz e nunca me ouviram queixar-se disso. O modo como a minha vida me tem corrido, pelo que sou ou por azar, fez-me encarar a infelicidade como uma realidade sempre presente. A minha vida foi feita de modo resignado e apaziguado perante a infelicidade, de modo a conseguir ultrapassá-la em vez de me deixar mandar abaixo, como muitos fazem.
6- Nunca colhi os frutos do meu trabalho. Por mais nobre que fosse a causa e por mais empenho que eu tivesse, a verdade é que nunca recebi o que dei. Contudo nunca me deixei ir abaixo, mais uma vez resignei-me, desta feita ao facto de não poder contar com a motivação vinda do trabalho completo, mas invés do fim a alcançar, mesmo que nunca o alcance.
a. O mesmo se aplica à minha vida no modo geral. Não recebo dela o que tanto me aplico, nem ela segue os caminhos que tanto luto em tentar faze-lo.
7- O melhor modo de eu sentir-me próximo da felicidade é através da felicidade dos outros. Pouco me enche mais a alma de confiança e alegria do que conseguir com que os meus amigos partilhem comigo o que sentem quando estão felizes.
8- Para concluir, não obstante do que a minha vida me tem feito nas alíneas anteriores, vivo sempre com alegria e com ímpeto. Acreditando que a alegria não é um estado de alma mas uma obrigação para com o mundo, e acreditanto que o ímpeto para viver é a melhor maneira de criar e realizar coisas.
Tendo em conta tudo o que foi dito passo agora às minhas exigências. Sentindo-me pleno de razão em fazer juízos sobre a de injustiça que reina na minha vida.
A- Exijo que a minha obra passe a ser não só reconhecida pelas autoridades em causa, como passe a ser o principal critério aquando da avaliação da minha vida. Com isto espero conseguir terminar com os problemas referidos em 1, 3, 4 e 6.
B- Exijo mais sorte na minha vida pessoal, tanto a nível psicológico básico de interacção familiar, como até emocional de plano conjugal. Com isto espero conseguir terminar com os problemas referidos em 2,5 e 7.
C- Exijo um sorriso na cara de todas as pessoas com quem partilho a minha alegria, para sentir que a vida é algo pela qual vale a pena continuar a lutar. Com isto espero conseguir terminar os problemas referidos em 8.
Se as minhas exigências não forem cumpridas, então retiro toda a confiança e reconhecimento às autoridades em causa na manutenção dos seus postos. Sendo de imediato iniciado um processo de substituição das autoridades.
Este manifesto assenta-se num princípio básico de justiça que me faz concluir que mereço mais da vida! Eu continuarei a lutar como sempre e com o mesmo ímpeto, continuarei a estar lá para os outros, continuarei a considerar a obra como principal força motriz da nossa vida, contudo espero ver – com estas medidas – uma melhoria no que toca ao meu cansaço e disponibilidade mental, psicológica, emocional, sentimental e intelectual.
Estas medidas tendem somente a tornar a minha vida menos insuportável e com pequenas doses de felicidade e realização, para que os meus objectivos consigam ser alcançados sem ter que sofrer como se de um herói grego eu me tratasse.
Com as mais cordiais despedidas,
Miguel Romão